Criança de 6 anos vira alvo de disputa após feminicídio da mãe em Feliz Natal

Após morte da jovem de 28 anos, família de homem que diz ser pai quer levar menino ao Acre, enquanto cuidadora afirma que criança vive com ela desde 1 ano de idade.

A morte de Mirela dos Santos Kaluzny, de 28 anos, assassinada a facadas em Feliz Natal (MT), abriu uma disputa familiar pela guarda do filho dela, de 6 anos. De um lado, familiares de um homem que afirma ser o pai da criança querem levá-la para o Acre. Do outro, a mulher que atualmente cuida do menino afirma que ele vive com sua família desde o primeiro ano de vida, e que não pode entregá-lo a alguém sem que a situação seja esclarecida.

Mirela dos Santos Kaluzny
A mãe da criança, Mirela, foi vítima de feminicídio na madrugada do último domingo (6), em Feliz Natal (MT). – Foto: Arquivo Pessoal

A criança foi registrada em Rio Branco (AC) em 2020 apenas com o nome da mãe e ainda nos primeiros anos de vida foi trazida para Mato Grosso.

A mulher que atualmente está responsável pelos cuidados da criança relatou que o menino chegou à casa da avó dela quando tinha cerca de 1 ano, após a mãe se mudar para Nova Mutum (MT). Segundo ela, a criança permaneceu sob os cuidados da família durante os anos seguintes, enquanto a mãe trabalhava.

Ela afirma que, em fevereiro de 2024, a Mirela chegou a fazer em cartório uma procuração pública autorizando a avó da cuidadora a representá-la em situações envolvendo a criança, como escola, atendimento hospitalar e até viagens.

O Portal Primeira Página teve acesso ao documento completo, que mostra a passagem da responsabilidade da criança por tempo indeterminado.

A cuidadora afirma ainda que a família providenciou vacinação e acompanhamento escolar da criança ao longo dos anos. Segundo ela, a mãe teria ficado períodos prolongados sem visitar o filho.

Família do suposto pai diz que criança foi escondida

A irmã do homem que afirma ser o pai da criança contou que a família só voltou a procurar pelo menino após a morte da mãe. Segundo ela, o homem, que atualmente também vive em Mato Grosso, conviveu com a criança quando ainda morava com a mãe no Acre, mas perdeu o contato depois que ela se mudou para Nova Mutum.

A familiar afirma que recebeu informações de que a criança estaria vivendo na cidade mato-grossense com uma mulher que seria responsável pelos cuidados dela. Segundo ela, a família tentou contato e pediu informações sobre o menino, mas não teria recebido fotografias ou confirmação suficiente sobre o estado da criança.

Em entrevista ao Portal Primeira Página, a possível tia também disse que o irmão chegou a registrar um boletim de ocorrência contra a cuidadora após o contato entre as partes. Até o momento a reportagem não teve acesso ao registro da ocorrência.

A família do suposto pai pretende levar a criança para o Acre, onde a avó do menino estaria disposta a assumir os cuidados.

Cuidadora diz ter receio de entregar a criança

Por outro lado, a mulher que está com a criança afirma que não pretende impedir o contato do menino com familiares biológicos, mas diz que não se sente segura em entregá-lo imediatamente a alguém que não consta no registro de nascimento.

Segundo ela, outras pessoas também teriam entrado em contato afirmando ser o pai da criança, o que aumentou a preocupação da família responsável pelos cuidados. Em entrevista, a mulher disse ainda que conversou diretamente com o homem que se apresenta como pai e tentou explicar toda a situação.

A mulher também argumenta que o menino não teria vínculo atual com a família paterna, já que cresceu em Nova Mutum sob os cuidados da avó dela e de outros familiares.

“Não posso tirar a criança daqui de imediato para entregar para uma pessoa que eu não conheço. A criança se tornou parte da nossa família. Minha avó criou, cuidou, levou ao hospital e tem um laço afetivo muito grande com ele”, disse em entrevista ao Portal Primeira Página.

A cuidadora diz que, apesar do conflito, não pretende afastar a criança de possíveis familiares biológicos e que está disposta a discutir a situação desde que haja segurança e comprovação sobre o vínculo familiar.

Questionada sobre os familiares de Mirela, a cuidadora afirmou que a avó materna da criança faleceu anos antes do crime de feminicídio. O reportagem tentou contato com uma suposta prima da vítima, mas até o fechamento do texto não obteve retorno.

Até o momento, segundo os relatos, a criança permanece em Nova Mutum, sob os cuidados da família que afirma criá-la nos últimos seis anos.

Feminicídio em Feliz Natal

A mãe da criança morreu na madrugada de domingo (6), em Feliz Natal. Segundo a Polícia Militar, moradores acionaram a equipe após ouvirem gritos em uma residência. A vítima foi encontrada ferida e morreu no local.

Um homem de 43 anos foi preso suspeito do crime. Conforme o boletim de ocorrência, ele teria discutido com a vítima e desferido golpes de faca. A Justiça converteu a prisão em flagrante em preventiva durante audiência de custódia realizada na segunda-feira (7).

Entre o momento em que o homem chega acompanhado de Mirela e sai da residência sozinho se passaram aproximadamente sete minutos. – Foto: Reprodução

Nesta terça-feira (8), foram divulgadas imagens de uma câmera de segurança que mostram os minutos que antecederam o crime. No registro a vítima aparece chegando à uma residência acompanhado de um homem. A pessoa que aparece no vídeo não é o suspeito preso, o que pode indicar a participação de um segundo homem no crime.

O caso segue sendo investigado pela Polícia Judiciária Civil.

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