Estudo revela que 26% da população vive sob regras de facções

Repressão intensa pode fortalecer o controle das facções sobre comunidades, apontam especialistas

Um novo estudo publicado pela Cambridge University Press acende o alerta para um dado alarmante no Brasil: cerca de 26% da população, ou mais de 50 milhões de pessoas, vive em áreas dominadas por facções criminosas.

Nessas regiões, moradores são obrigados a seguir normas impostas por organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que exercem uma espécie de “governança criminal”.

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Símbolo de facção em muro indicando áreas sob comando. (Foto: Reprodução)

A pesquisa desafia a percepção de que o crime organizado se fortalece apenas onde o Estado está ausente. De acordo com um dos autores, a repressão intensa, marcada por prisões em massa e operações policiais, pode ser justamente o fator que leva as facções a se organizarem ainda mais.

“As facções criam mecanismos de controle social para reduzir riscos e proteger seus territórios da presença policial”, afirma o pesquisador.

Ordem paralela

Na prática, o domínio das facções não se limita ao tráfico de drogas ou ao controle econômico das áreas. Ele se traduz em normas cotidianas que regulam a vida de comunidades inteiras.

Um motorista de aplicativo de Manaus relatou que, após o Comando Vermelho assumir o controle em sua região, brigas, furtos e até casos de violência doméstica diminuíram. Segundo ele, isso ocorre porque a facção pune severamente quem atrai a atenção da polícia.

Esse relato ilustra como as facções impõem uma “ordem paralela” em territórios periféricos. Apesar de ser um controle baseado no medo e na violência, para muitos moradores, ele acaba se traduzindo em uma sensação de estabilidade, ainda que ilusória.

Panorama nacional

O problema está longe de se restringir à Amazônia. Um levantamento recente do jornal O Globo identificou a existência de 64 facções criminosas ativas no país. Entre elas, PCC e CV já marcam presença em quase todos os estados, ampliando sua influência e rivalidades.

Essa expansão revela um desafio estrutural: enquanto o Estado insiste em estratégias de enfrentamento baseadas na repressão, facções constroem mecanismos sofisticados de governança, consolidando sua presença nas margens urbanas e até mesmo em cidades do interior.

Tolerância Zero em MT

O balanço do programa Tolerância Zero criado com o objetivo de diminuir o controle de facções em Mato Grosso foi apresentado pelo governador de Mato Grosso Mauro Mendes, e pelos secretários de Justiça, Vitor Hugo Bruzulato, e secretário de Segurança Pública, César Roveri, em coletiva realizada no Palácio Paiaguás, em Cuiabá em março.

De acordo com o números, foi identificado aumento de 164% nas apreensões de drogas, em comparação com o mesmo período do ano passado.

A recém-criada Secretaria de Justiça realizou 216 operações em 41 unidades prisionais, nas quais foram apreendidos 3058 porções de drogas (maconha e cocaína), 1754 aparelhos de celular, 737 carregadores, 734 chips de celular e 151 armas artesanais.

Questionado sobre o motivo da operação não ter sido feita antes, Roveri disse que houve aumento no número de ações realizadas pelas forças de segurança de modo geral, não apenas contra facções criminosas, como é o caso da Tolerância Zero.

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