A mulher trans de 29 anos, torturada, ameaçada de morte e marcada na pele com uma suástica, símbolo do nazismo, contou os momentos de terror que passou ao ficar em cárcere na residência de um casal para quem prestava serviços. O caso ocorreu no sábado (14), em Ponta Porã, região de fronteira do estado.
Marca da suástica deixada no braço da vítima (Foto: Liniker Ribeiro)
À reportagem, a vítima contou que conheceu os autores pouco antes do natal, quando havia sido contratada para fazer uma faxina no imóvel. Até este sábado, ela relatou que a convivência com o casal era tranquila e que nada de errado havia acontecido.
No dia do ocorrido, o então namorado dela, com quem ela havia reatado o relacionamento há menos de uma semana, estava na casa onde os dois viviam juntos. No local, a mulher estava cortando a grama, quando recebeu ligação da suspeita de que teria um pagamento para receber e que era para ela ir até a casa do casal.
Assim que chegou à residência junta do namorado, foi recebida pela mulher, que falou para que ela sentasse em uma cadeira localizada na área da churrasqueira. Após alguns minutos, a suspeita pediu que ela fosse até o escritório, onde o marido a aguardava para entregar o dinheiro.
“Cheguei lá, ele estava em pé na porta com uma fita azul dessas de jiu-jitsu. Eu vi que tinha uns tacos embaixo da mesa, mas eu não me assustei. Na hora que ele pegou, ele perguntou se eu queria morrer em pé ou deitada, ou se eu queria levar um tiro na minha perna ou na minha mão. Aí eu falei: ‘por que vocês estão fazendo isso comigo? O que que eu fiz pra vocês? Eu não roubei nada do senhor, não fiz nada pro senhor nem pra dona L… Por que vocês estão fazendo isso comigo?’ Eu me apavorei e saí correndo do escritório. Foi quando ele me deu uma tacada de sinuca nas minhas costas e eu dei um apagão, quase desmaiei. Se eu tivesse desmaiado eles tinham me matado ali, naquele exato momento, mas eu graças a Deus consegui correr. Eu corri e foi quando eles me pegaram na área da varanda e começaram as agressões com um taco de sinuca, com as vassouras”, relatou.
Nesse momento, a vítima lembrou dos momentos de tortura que passou a sofrer pelo trio, que a ameaçavam de morte o tempo todo.
“Foi murro nos meus olhos, na boca do meu estômago, joelhada nos meus olhos, rasgou tudo minha roupa, tapão no meu ouvido que arrancou até meu brinco da minha orelha. Lá na varanda que foram mais as agressões, foi onde começou a sair sangue da minha boca, do meu nariz. Eles queriam amarrar minha mão, amarrar meu pescoço para poder me enforcar, para me jogar no chão igual um boi para depois me picotar, para me matar. Eles falaram: ‘vamos matar. Você não gosta? Agora você vai morrer’. Aí eu tentei destravar o portãozinho, mas a dona L… foi correr e travou de novo o portãozinho. Foi aí que eu apanhei mais ainda, apanhei bastante, muito”, disse.
Enquanto apanhava, um dos homens pegou uma faca que havia sido esquentada no fogão e passou a marcar o corpo da vítima com uma suástica, símbolo do nazismo.
“Na hora que eu estava sentada na cadeira começaram a me torturar. Aí eles cheiravam um negócio, a droga deles, tomavam álcool e davam risada do meu caso. O senhor J….. mandava a dona L….. esquentar a faca no fogão pra passar no meu braço, pra fazer o símbolo. Ele continuava me queimando e enfiando uma faca sentado na rede, falando que tava com vontade de cortar o meu pescoço, cortar minhas pernas, queria dar um tiro na minha perna. Falaram: ‘vamos fazer um negócio de nazismo’. Não sei o que significa isso. Eles ficaram falando um monte de coisa lá e não justificavam nada pra mim”, declarou.
Ao questionar os agressores sobre os motivos da tortura, recebeu apenas risadas como resposta. Após um certo tempo, o dono da casa e um dos envolvidos decidiu abrir o portão para deixar a mulher sair, mas informou que se ela contasse o que havia ocorrido, seria morta por eles.
“Eu cheguei na minha casa apavorada, abalada, eu não sabia o que eu fazia. Aí eu fui até a rodoviária para poder pedir ajuda. Foi onde eu pedi ajuda, as pessoas me socorreram, me ajudaram. Eu não tinha força pra conversar, eu tava muito abalada, eu estava muito apavorada, porque só Deus sabe o que eu passei naquele momento, de ver a morte de perto e você não poder fazer nada. Eu fui levada pro Hospital Regional de Ponta Porã e eu fiz o exame do meu peito, das costas. Meu peito tá inchado, tá tudo inflamado por dentro, se apertar dói tudo. Minha cabeça tá rachada, eu tô com essa ferida que fizeram essa crueldade no meu braço com a faca”, contou.
Marcas das agressões sofridas pela vítima (Foto: Liniker Ribeiro)
Trauma
Ao se lembrar de tudo que viveu na casa, contou que restou apenas “traumas” e que precisará iniciar tratamento no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) da cidade.
“Quando eu tinha 5 anos já fui estuprada, e agora tô passando mais esse problema, dessa situação de vida de novo. É uma coisa muito triste para nós e pela minha família. Eu espero que a justiça seja feita, porque é muito triste pra mim, pra minha família pros meus amigos. Eu não mereço isso, eu sou trabalhadora, eu carpo quintal, roço grama, faço faxina, faço unha, nunca mexi em nada de ninguém. Estava cuidando da casa da minha mãe, porque minha mãe também está com problema sério de saúde. […] Vou ter que fazer duas cirurgias na minha cabeça e um procedimento para retirar a marca no braço. Tenho que trocar a minha pele, arrancar essa pele e colocar outra. Nem tenho tatuagem no corpo e sou marcada por uma maldade humana que fizeram comigo”, finalizou.
Prisão
Os presos são o namorado da vítima, de 22 anos, e um casal para quem ela trabalhava – um homem de 38 anos e uma mulher de 25. Eles foram levados para a delegacia na manhã de domingo (15). Durante a tarde, o caso passou por análise da Justiça, que decidiu converter o flagrante em preventiva.
Enquanto isso, a vítima espera para passar por um procedimento cirúrgico para retirar a marca da tortura do braço. As investigações agora serão feitas pela DAM (Delegacia de Atendimento à Mulher).
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