Funcionário preso por morte em clínica já esteve internado com vítima

Delegado afirma que pacientes e outros funcionários relataram que internos eram amarrados com cordas e golpes eram aplicados para que desmaiassem.

Odiley Rodrigues Souza, funcionário de uma clínica de reabilitação e investigado pela morte do paciente Alessandro Sidinei Braga, de 38 anos, disse que conhecia a vítima e que teriam sido internados juntos em outra clínica de reabilitação, em outra ocasião.

Odiley foi preso nesta segunda-feira (1º), após o paciente ser encontrado morto em um quarto da clínica, no bairro Jardim Primavera, em Cuiabá.

Funcionário investigado admite ter dado versão falsa sobre morte de interno.
Funcionário investigado admite ter dado versão falsa sobre morte de interno. – Foto: Reprodução

Em coletiva de imprensa, o delegado Michael Paes da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), contou que o relato foi feito em depoimento por Odiley e que ele também confessou à polícia que apresentou uma versão falsa sobre o suposto enforcamento da vítima. No entanto, o passado de Odiley ainda será aprofundado na investigação.

“Pelo que ele falou ele era [ex-interno de clínica]. O diretor, responsável também falou que ele é ex-interno de outra clínica. Ele disse que inclusive conhecia a vitima porque ficaram internados juntos me outra clinica. Não temos documentos que comprovem isso, mas ele falou e o chefe dele também”, disse o delegado.

Conforme a autoridade policial, não foi encontrada até o momento documentação ou algo que comprove que Odiley tinha qualificação profissional para exercer profissão e atendimento à pessoas com transtornos mentais.

De acordo com o delegado, ele admitiu que alterou a cena do crime, ao tentar “socorrer” Alessandro do suposto suicídio. Contudo, peritos no local não acreditam na tese de autoextermínio, já que elementos no local e no corpo da vítima não condizem com a situação.

Além disso, o delegado ainda informou que, dentre as pessoas que foram ouvidas na clínica, pacientes teriam sido coagidos para que confirmassem a versão de suicídio aos policiais.

Irregularidades na clínica

Embora em primeiro momento o curso das investigações tenha se dado em torno do homicídio de Alessandro, o delegado afirma que a Polícia Civil vai verificar se a clínica particular onde a vítima estava internada tinha autorização e documentação adequada para funcionamento.

Ele menciona que foram constatadas irregularidades no local. Pacientes eram amarrados com cordas durante surtos, pois, segundo funcionários, não havia instrumentos adequados para conter internos durante crises. Entre os relatos, estão golpes de “mata-leão” para desmaiar os pacientes em surto

Pacientes eram amarrados e trancados em “quarto da punição”, diz delegado. – Vídeo: TVCA

“Local totalmente irregular, não tinha colete de contenção, outros internos e pacientes eram amarrados com corda, eram muitas irregularidades”, narra.

O delegado também afirma que, segundo o dono do estabelecimento, prefeituras do interior do Estado tem convênio com o local e enviam pacientes para tratamento, cuja observação foi de que está em desacordo com as normas técnicas de funcionamento.

“Não tinha ninguém da área da saúde, não vimos psicólogos, assistente social, terapeutas, enfermeiros, ninguém da área da saúde mental. Tanto é que o preso é um ex-interno e que era responsável por mais de 50 pessoas na clínica”, cita.

Quarto da ‘punição’

Segundo o delegado, o quarto em que Alessandro foi encontrado servia de “punição” para pessoas “problemáticas”. O quarto coletivo ficava trancado pelo lado de fora, deixando as pessoas presas do lado de dentro.

Odiley Rodrigues em depoimento sobre morte de interno. – Vídeo: PJC

Segundo o delegado, Odiley relatou que fraudou a cena do crime “por medo” e disse que foi “necessário” pois o paciente estava em surto, alterado. Amarrou o paciente e saiu do local. De madrugada teria tido outro surto e foi amarrado de novo. Já pela manhã, disse que encontrou o homem morto.

“A partir do momento que ele confessa que amarrou uma pessoa vulnerável com os braços para trás, em uma sala coletiva com outras pessoas com transtornos mentais, ainda que outra pessoa teria praticado o crime, ainda assim ele facilitou que outra pessoa executasse, porque ele quem amarrou”, explica.

As autoridades policiais acreditam que ele tenha sido o autor, mas existe a possibilidade outra pessoa ter participado, o que deve ser investigado.

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