Medo já fazia parte da rotina de quem viu morte no Procon-MS

Outros policiais, armados, já teriam ameaçado consumidores, durante audiências de conciliação no órgão, segundo uma das testemunhas do homicídio, ocorrido na última segunda-feira (13)

Testemunhas do assassinato a tiros, ocorrido na última segunda-feira (13) os funcionários do Procon-MS, em Campo Grande já teriam presenciado outros consumidores, armados, trocando ofensas dentro do órgão. A ordem, no entanto, era fazer vista grossa. É o que diz uma das servidoras que prestaram depoimento à Polícia Civil após o crime.

Todas as testemunhas citadas na reportagem terão as identidades preservadas.

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Pasta com o nome do PM reformado e a logo da ACICG – onde Antônio Caetano era um dos diretores. (Foto: Canal Aberto)

Audiências de conciliação como a que terminaram na morte do empresário Antônio Caetano de Carvalho, de 66 anos, pelo policial militar reformado José Roberto de Souza, de 53 anos, sempre foram palco de ameaças, segundo a testemunha.

De acordo com a funcionária “era previsível” que um crime ocorresse na sede do Procon-MS, diante das reclamações dos conciliadores após se depararem com consumidores armados.

A testemunha já havia presenciado audiências de outros consumidores, que também eram policiais e que “sacaram armas de fogo para que as situações fossem resolvidas”.

Ainda segundo a trabalhadora, mesmo diante da violência, os conciliadores “sempre foram orientados a não registrar boletim de ocorrência” ou “termos de audiências” para evitar “problemas”.

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Policiais da Decon (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Contra as Relações de Consumo) – unidade policial que fica no mesmo prédio do Procon – já tiveram que “mediar conflitos mais calorosos algumas vezes, durante audiências.

Após o crime, a secretária de assistência social e direitos humanos do Estado, Patrícia Cozzolino, informou que o governo de Mato Grosso do Sul vai reforçar a segurança no prédio.

“Estamos levantando informações e vamos reforçar na questão da triagem das pessoas que vem a conciliação. Além disso, vamos checar se houve alguma falha na segurança”, destacou.

Atualmente, segundo a titular da pasta, apenas seguranças patrimoniais atuam na segurança, no local.

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José Roberto fugindo após o crime. (Foto: Canal Aberto)

Era a 2ª audiência

Segundo relato das testemunhas, o empresário e o policial reformado tiveram uma primeira audiência de conciliação, na sexta-feira (10), três dias antes do crime. José Roberto reclamava que Caetano não teria prestado o reparo correto do motor de seu veículo.

Já Caetano, proprietário da empresa que realizou o serviço, apresentou todos os documentos que comprovavam que o serviço foi devidamente prestado, exceto, um certificado de garantia e a nota fiscal do motor.

A vítima se prontificou a entregar os documentos pendentes, mediante o pagamento de R$ 630,00 que o PM reformado lhe devia pelo serviço. Nesta primeira audiência, José Roberto já havia se negado a pagar o valor e exigiu que os documentos fossem entregues na presença de uma conciliadora, durante outra audiência, marcada para a segunda-feira (13), dia do homicídio.

Ameaçou um servidor do Procon-MS

Depois de assassinar o empresário, José Roberto teria apontado pistola usada no crime na direção de um dos servidores do Procon-MS enquanto deixava o órgão em meio ao “corre-corre, gritos e choros” dos servidores. O servidor ameaçada também disse à Polícia Civil que, na primeira audiência entre os consumidores teve um breve contato com Antônio Caetano.

“Não sei o que esse cara quer. Eu já fiz tudo para ele. Eu já fiz o motor duas vezes para ele”, teria desabafado a vítima no dia da primeira audiência.

Apesar do desacordo, ainda conforme a testemunha, Caetano demonstrou estar “um tanto aliviado” por ter acordado uma segunda audiência para tentar por fim ao impasse.

Funcionário tentou acalmar os ânimos

Um funcionário do Procon-MS tentou acalmar os ânimos dos consumidores, durante a discussão que precedeu o assassinato. A testemunha disse ter sido chamada pela conciliadora que estava tentando resolver o desacordo entre o policial reformado e o empresário.

Depois de ter pedido que os dois homens parassem de discutir, o “ambiente ali se acalmou, pelo menos naquele momento”. Mas logo em seguida ocorreram os disparos e o policial deixou a sala de conciliação “com certa tranquilidade”.

“Como você quer receber?”

Outra testemunha do crime disse à polícia que Antônio Caetano manteve a calma, mesmo diante das ofensas do policial militar reformado, durante a primeira audiência de conciliação, ocorrida na sexta-feira (10). Na ocasião, José teria xingado Caetano de “bandido” e “larápio”, mas a vítima teria se “comportado com calma diante das agressões verbais”.

Durante a audiência de segunda-feira, dia 13, José Roberto voltou a ofender o empresário, que teria dito que não iria aceitaria mais ser desrespeitado. Porém, sem exaltação, aceitou a cumprir as exigências de José Roberto – entregar o certificado de garantia e a nota fiscal do motor.

No entanto, ao questionar José Roberto sobre como receberia a diferença de R$ 630.00, a vítima foi morta à queima roupa.

“Como você quer receber?” teria insinuado o policial reformado, antes de dar três tiros na cabeça da vítima.

Não foi encontrado

Ainda não há informações sobre o paradeiro de José Roberto. A pistola calibre .380 usada no crime também não foi localizada. As investigações da Polícia Civil, a cargo da 1ª Delegacia, localizada no Centro, indicam que José Roberto tinha registro de uma arma do mesmo tipo, mas estava vencido desde 2015. Pela Polícia Militar, ele não tinha mais direito a porte, por ter ido para a inatividade por problemas psiquiátricos.

A vítima, o empresário Antônio Caetano de Carvalho, de 67 anos, foi sepultado ontem.

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Corpo da vítima sendo retirado do Procon-MS. (Foto: Maressa Mendonça)

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