Bunker subterrâneo revela logística de guerra do garimpo em terra indígena em MT

Grupos armados montam estrutura de guerra em área indígena no oeste de Mato Grosso, com arsenal, internet via satélite e logística para sustentar a extração de ouro

Agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Polícia Federal (PF) localizaram um esconderijo subterrâneo usado por garimpeiros na Terra Indígena Sararé, no oeste de Mato Grosso. No local havia munições, equipamentos e mantimentos. A descoberta ocorreu durante a retira de invasores iniciada em agosto.

A medida reforça indícios de presença de facções e de armamento pesado na área.

O alçapão estava camuflado com folhas e lonas. Ao abrir a tampa de madeira, as equipes encontraram um bunker escavado no subsolo e uma estrutura de apoio que sustentaria a extração ilegal por longos períodos.

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Polícia descobre depósito subterrâneo em garimpo na Terra Indígena Sararé. (Foto: reprodução)

Segundo o coordenador de campo do Ibama, Hugo Loss, o padrão do material apreendido não é comum em ações de fiscalização ambiental. “Há munições e armamentos que não são usuais, o padrão é de grupos criminosos”, afirmou.

Na semana passada, fiscais foram recebidos a tiros de fuzil ao se aproximarem de uma área tomada por acampamentos. Os suspeitos fugiram pela mata e deixaram para trás um fuzil, carregadores, munições, celulares e um kit de internet via satélite.

“Acreditamos que parte do grupo permaneça na área, as forças de segurança vão seguir fazendo incursões até localizá-los”, disse Loss.

Cinco homens seguem foragidos.

Com 67 mil hectares entre Pontes e Lacerda, Conquista d’Oeste e Vila Bela da Santíssima Trindade, a Sararé lidera a devastação associada ao ouro ilegal. Em três anos, o Ibama estima ao menos 3.373 hectares degradados. Em 2025, a terra indígena esteve no topo de alertas de garimpo. Após as primeiras semanas de operação, o total caiu de centenas por mês para menos de dez.

A logística dos grupos inclui terminais de internet via satélite, rádios e olheiros para antecipar a chegada das equipes. Em uma única frente, fiscais apreenderam cerca de 15 dispositivos. Escavadeiras são camufladas com lonas verdes e folhas de palmeira para driblar o reconhecimento aéreo. Motores e bombas d’água são enterrados em trincheiras. Acampamentos desfeitos por agentes acabam reocupados semanas depois.

Imagens mostram onde os garimpeiros depositavam mantimentos. (Vídeo: Ibama)

A dinâmica de extração segue padrão conhecido. Escavadeiras abrem cavas, motores puxam água do rio e alimentam bicos de jato que desmancham barrancos. O sedimento passa por caixas com tapetes impregnados de mercúrio para reter o ouro. O excesso retorna ao curso d’água com resíduos oleosos. “A turbidez impede a luz de chegar ao fundo, mata plantas aquáticas e afeta a cadeia alimentar dos peixes. Em muitos trechos a mata ciliar foi ao chão”, disse Loss.

Os números ilustram a escala. Até meados de setembro, as equipes desmantelaram mais de 500 acampamentos. Pelo menos 140 escavadeiras e 400 motores foram inutilizados ou apreendidos. Quase 65 mil litros de diesel foram retirados de circulação. No entorno, usado como base de apoio, seis postos clandestinos de combustível foram fechados. A Polícia Civil de Mato Grosso calcula multas administrativas próximas de 4 milhões de reais. Em balanço parcial, 10 quilos de mercúrio foram apreendidos.

A Polícia Federal conduz inquéritos sobre exploração mineral em terra indígena, lavagem de dinheiro e organização criminosa, com frentes na faixa de fronteira para rastrear armas, insumos e rotas. A Polícia Civil relata reflexos na segurança pública regional. Segundo o delegado regional João Paulo Berté, facções primeiro venderam drogas ao contingente no garimpo e depois passaram a disputar frentes de extração. “Em 2024 e 2025 contabilizamos cerca de 60 homicídios diretamente ligados à disputa por espaço no garimpo. Muitos corpos são removidos do local do crime, o que dificulta a perícia”, afirmou.

A operação cumpre decisão judicial de 2023 que determinou a retirada total de invasores não indígenas da Terra Indígena Sararé. Participam Ibama, PF, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional de Segurança Pública, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Ministério dos Povos Indígenas, Grupo Especial de Fronteira de Mato Grosso (Gefron) e as polícias Civil e Militar de Mato Grosso e de Goiás. “É um trabalho sem prazo para acabar. A presença tem de ser permanente, dentro da terra indígena e nos pontos de apoio no entorno”, disse Jair Schmitt, diretor de Proteção Ambiental do Ibama.

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