Para manter entregas, mercado clandestino de emagrecedores vende até "seguro-compra"

Segundo dados da Vigilância Sanitária, em apenas 20 dias de operação foram apreendidos 9,9 mil frascos

Em meio à ofensiva da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) contra medicamentos irregulares para emagrecimento, o contrabando da medicação segue acontecendo nas redes sociais. A nova investida dos vendedores clandestinos é oferecer aos clientes um “seguro envio” para garantir o reenvio das ampolas em caso de apreensão pelas autoridades sanitárias em Mato Grosso do Sul.

emagrecedores paraguai
Canetas emagrecedoras de farmacêuticas paraguaias estão proibidas no Brasil | (reprodução redes sociais/divulgação PMRv)

A prática surge em meio à intensificação das fiscalizações, especialmente nos centros de distribuição dos Correios em Mato Grosso do Sul. Segundo dados da Vigilância Sanitária, em apenas 20 dias de operação foram apreendidos 9,9 mil frascos e canetas de medicamentos irregulares.

“Seguro” para produto ilegal

Em grupos fechados de mensagens e redes sociais, vendedores oferecem medicamentos com suposta base de tirzepatida, molécula patenteada pela farmacêutica Eli Lilly, e também fórmulas que alegam conter retatrutida, substância ainda em fase de estudos clínicos.

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Novos métodos para manter a clientela (Foto: Reprodução)

Para contornar o risco de apreensão, os comerciantes criaram uma espécie de taxa adicional:

  • R$ 200 para “seguro envio” de produtos anunciados como tirzepatida;
  • R$ 300 para medicamentos divulgados como sendo à base de retatrutida.

Desta forma, o cliente paga um valor extra para ter direito a um segundo envio caso a mercadoria seja retida pela fiscalização.

A Anvisa, em seus comunicados proibindo a medicação, diz que, além da ilegalidade da importação e comercialização, não há qualquer garantia sobre a composição, procedência ou armazenamento dessas substâncias.

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Proibição de TG e Lipoless

A estratégia clandestina ocorre após a Anvisa determinar a proibição e apreensão de produtos como TG e Lipoless, que vinham sendo comercializados como alternativas injetáveis para emagrecimento, muitas vezes associados indevidamente a princípios ativos como tirzepatida.

A agência reguladora apontou ausência de registro sanitário, origem desconhecida e risco à saúde pública como principais motivos para a medida. Sem autorização para fabricação ou importação regular no Brasil, esses produtos passaram a ser alvo de operações específicas.

Riscos à saúde

Médicos endocrinologistas alertam que o uso de medicamentos injetáveis para emagrecimento sem prescrição e sem controle sanitário pode causar:

  • Reações adversas graves;
  • Complicações gastrointestinais intensas;
  • Alterações metabólicas;
  • Infecções por falhas na esterilidade das ampolas.

No caso de substâncias ainda em pesquisa clínica, como a retatrutida, o risco é ainda maior, já que não há aprovação para comercialização no Brasil.

Fiscalização intensificada e R$ 5 milhões em apreensões

As apreensões concentradas em Mato Grosso do Sul refletem a rota utilizada para entrada dos produtos no país. A Vigilância Sanitária tem atuado em parceria com a Receita Federal e os Correios para interceptar encomendas suspeitas.

Conforme a Secretaria de Estado de Saúde (SES), o balanço consolidado até 25 de fevereiro reúne resultados da Operação Visa-Protege, que visa combater a comercialização e o envio de medicamentos e produtos proibidos no país. Somadas, as apreensões foram de R$ 5 milhões.

Foram 9.964 itens apreendidos em 20 dias de operação, entre medicamentos sem registro sanitário, anabolizantes, produtos falsificados e substâncias de circulação não permitida no território nacional. Confira o detalhamento abaixo:

  • 6.085 canetas e ampolas emagrecedoras, contendo substâncias como tirzepatida e retatrutida, sem autorização para venda no Brasil;
  • 2.265 unidades do chamado “Harp 100”, comercializado como fitoterápico, mas considerado irregular;
  • Anabolizantes e outros medicamentos proibidos.

Conforme a SES-MS, o valor estimado considera os preços médios praticados ao consumidor final, principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste, para onde parte das cargas tinha como destino.

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