Polícia diz que associação 'beneficente' ligada ao tráfico recebia verba de prefeitura

A Prefeitura de Rondonópolis se comprometeu a repassar o montante de R$ 120 mil anuais para as atividades da associação, que foi declarada de utilidade pública

A investigação da Operação Infiltrados, da Polícia Civil, reuniu indícios de que uma associação tenha sido criada com o objetivo de promover uma organização criminosa que comanda o tráfico de drogas em bairros da região da Vila Operária, em Rondonópolis, a 218 km de Cuiabá.

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Dinheiro apreendido com organização. (Foto: PJC/MT)

A Associação dos Familiares e Amigos de Recuperandos de Rondonópolis (Afar) foi alvo de mandado de busca e apreensão, sequestro de bens e bloqueio de valores, na última sexta-feira (27). A presidente da associação, de 29 anos, foi presa.

A decisão do Núcleo de Inquéritos Policiais de Cuiabá determinou ainda a suspensão das atividades e o repasse de valores que a entidade vinha recebendo da Prefeitura de Rondonópolis.

A prefeitura confirmou que foram feitos repasses, no entanto, como a associação não finalizou a prestação de contas, os valores foram suspensos.

Em um termo de colaboração estabelecido em abril deste ano entre o órgão público e a Afar, a prefeitura se comprometeu a repassar o montante de R$ 120 mil anuais para as atividades da associação, que foi declarada de utilidade pública conforme a Lei 13.161/2023, aprovada pela Câmara Municipal no ano passado.

Benefício político

Durante a investigação que embasou a Operação Infiltrados, a equipe da Derf (Delegacia Especializada de Roubos e Furtos de Rondonópolis) reuniu informações que apontaram o uso da associação para angariar apoio popular para elegerem candidatos a cargos políticos.

Um grupo em aplicativo de mensagens foi criado com esse intuito, com a obrigatoriedade dos integrantes em permanecer, sendo vedada a saída e com determinações das atividades que deveriam ser realizadas, além do compartilhamento de frases e símbolos em alusão à organização criminosa.

Em abril de 2024, a Afar assinou com a Prefeitura de Rondonópolis um termo de colaboração para repasse mensal de R$ 10 mil mensais (120 mil/ano). A estratégia era a inserção do advogado da associação, Ary Campos, vulgo “Capitão”, como candidato à Câmara de Vereadores do município.

A associação acordou entre seus membros o total apoio à candidatura do advogado ao pleito eleitoral de 2024. A partir de então, o advogado passou a liderar as atividades da Afar com a organização de eventos que supostamente auxiliariam na reabilitação de egressos do Sistema Penitenciário.

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Associação realizava ações sociais para beneficiar organização criminosa. (Foto: PJC/MT)

As atividades incluíam trabalhos voluntários para arrecadação e distribuição de alimentos a pessoas de baixa renda e assim obter credibilidade, além de eventos esportivos, realização de bingos, entre outras atividades, preferencialmente nas regiões periféricas de Rondonópolis.

Entre 2021 e 2024, em prisões realizadas de suspeitos ligados à facção criminosa e em investigações feitas pela Derf, foram apreendidos diversos materiais, como cartelas de jogos e bingos, anúncios de eventos esportivos e cestas básicas que apontaram a Afar como um “braço” da organização criminosa.

Em junho de 2022, foram apreendidas no bairro Cidade Natal, diversas cartelas de bingo da Afar e cestas básicas. Em agosto do mesmo ano, a Polícia Civil apreendeu cartelas de bingo do 6º Torneio e Show de Prêmios Beneficente da Afar.

Em 2023, durante a Operação Fumacê, da Delegacia de Alto Araguaia, contra integrantes de organização criminosa envolvida com tráfico de drogas, tortura, homicídio foi apreendido material da campanha do advogado, que naquele ano disputou o cargo eletivo de deputado federal.

No ano passado, a mesma associação foi alvo de uma investigação da Gerência de Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil, com o cumprimento de mandado de busca e apreensão durante a Operação Armadillo, que apurou o envolvimento de diversas pessoas na escavação de um túnel para a fuga de líderes criminosos da Penitenciária Central do Estado.

Durante as buscas na associação, a presidente, no momento da abordagem, tentou quebrar seu celular, que estava apreendido, tomando o aparelho das mãos de uma investigadora, que conseguiu retomar o celular e imobilizar a investigada.

A prática de quebrar o celular é uma determinação da organização criminosa a membros que possuem funções de chefia ou, a fim de proteger os dados de outros membros.

Os irmãos da presidente da associação foram identificados como líderes do tráfico de drogas na região da Vila Operária, que abrange 21 bairros de Rondonópolis.

Os dois e mais uma irmã dela, todos alvos da Operação Infiltrados, estão foragidos. Eles também foram investigados e alvos de outra operação, a Reditus, de 2018.

Durante a operação, foram apreendidos 9 veículos, entre eles, dois carros de luxo: uma Range Rover Evoque e um BMW.

Nota da prefeitura na íntegra:

A Prefeitura de Rondonópolis informa que no caso da lei, aprovada pela Câmara de Vereadores, que autorizou o termo de colaboração no valor total de R$ 120 mil, a Associação recebeu as três primeiras parcelas (R$ 30 mil no total) e não finalizou a prestação de contas, por isso o município não fez mais repasses. Esse recurso seria para a prestação de serviços de proteção social básica e projetos além das grades.

Além disso, o município realizou um termo de fomento de R$ 10 mil, em parcela única, como objetivo de atender com materiais de higiene pessoal as reeducandas da cadeia feminina.

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