Primeira capital de MT lidera índice de violência na Amazônia Legal

Relatório aponta explosão de mortes violentas, garimpo industrial na Terra Indígena Sararé e uso da fronteira como rota do tráfico.

Vila Bela da Santíssima Trindade (MT) registrou em 2024 a maior taxa de mortes violentas entre os municípios brasileiros com até 20 mil habitantes. A primeira capital de Mato Grosso registrou aumento expressivo da criminalidade ligado principalmente à posição estratégica na fronteira com a Bolívia e ao avanço acelerado do garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, que ampliou a atuação de facções criminosas no território.

O relatório Cartografias da Violência na Amazônia 2025, produzido pelo Instituto Mãe Crioula em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgado nesta quarta-feira (19).

Com 750 km de fronteira seca e outros 233 km de áreas alagadas dividindo o Brasil da Bolívia, Vila Bela se tornou uma rota importante para o tráfico internacional de cocaína produzida na Colômbia e transportada via Bolívia.

Só em 2024, duas operações apreenderam mais de 900 kg de drogas na região, reforçando o papel do município como corredor logístico para o narcotráfico.

Vila Bela
Garimpo e avanço do CV fazem Vila Bela liderar violência na Amazônia em 2024. Foto: TRE

Paralelamente a isso, o garimpo ilegal cresceu de forma explosiva na Terra Indígena Sararé, onde vivem cerca de 200 indígenas Nambikwara. De acordo com o relatório Ouro Tóxico, do Greenpeace, a área destruída pelo garimpo no território aumentou 93% entre 2023 e 2024, ao contrário de outras terras indígenas que registraram redução. Hoje, a Sararé é considerada a terra indígena mais afetada por garimpo no Brasil.

O efeito desse avanço aparece diretamente nos números da violência. Vila Bela registrou 12 mortes violentas em 2022, 17 em 2023 e 42 em 2024, um aumento de 250% em três anos. Nas três cidades que abrangem a Sararé, os assassinatos passaram de 13, em 2022, para 46 em 2024.

Terra indigena sarare
Vegetação da Terra Indígena Sararé, localizada entre os municípios de Conquista do Oeste e Pontes de Lacerda (MT). (Foto: TVCA)

Diante da escalada de crimes ambientais, ameaças aos povos indígenas e da consolidação de uma estrutura criminosa no território, o Ministério dos Povos Indígenas, em parceria com Ibama, Funai, Polícia Federal, Abin e Força Nacional, deflagrou uma grande operação de desintrusão entre agosto e outubro de 2025.

O prejuízo estimado aos criminosos nesse período é de R$ 237,5 milhões. As ações desmontaram 526 acampamentos, inutilizaram mais de 83 mil litros de diesel e destruíram 157 escavadeiras avaliadas entre R$ 340 mil e R$ 615 mil, evidenciando que o garimpo operava em escala industrial.

Nos últimos dois anos, o Comando Vermelho deixou de atuar apenas no fornecimento de segurança, armas e drogas aos garimpeiros e passou a controlar diretamente a extração ilegal de ouro na região. A facção passou a impor regras, comandar a circulação de pessoas, extorquir trabalhadores e cobrar mensalidades que variam de 10 g a 100 g de ouro por operação, segundo um “salve” que circula em grupos de WhatsApp. Com a grama de ouro acima de R$ 700, o valor arrecadado mensalmente é milionário.

A combinação entre tráfico internacional, garimpo ilegal, desmatamento e fortalecimento de facções transformou Vila Bela da Santíssima Trindade em um dos pontos mais críticos da Amazônia. O resultado é o aumento acelerado da violência e a intensificação das ameaças ao povo Nambikwara e ao território da TI Sararé, hoje sob forte pressão ambiental e criminosa.

Vila Bela da Santíssima Trindade foi a primeira capital de Mato Grosso a partir de sua fundação em 19 de março de 1752. Ela foi a capital durante o período colonial, e a transferência para Cuiabá ocorreu em 1835. 

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