Quanto custa a vida de uma mulher? Penas revelam o preço da violência

Em fevereiro deste ano, a ALMT aprovou o Projeto de Lei "Meninas Calvi Cardoso", criado com objetivo de aplicar multa administrativa coercitiva de até R$ 1,7 milhão a agressores de mulheres no estado.

O Dia Internacional da Mulher, comemorado neste domingo (8), deixou de ser apenas uma data simbólica e passou a ser um alerta. Dentro de casa e nas ruas, mulheres continuam sendo mortas por homens que um dia disseram amá-las.

Em 2025 – primeiro ano da lei que aumentou a pena para feminicídio em vigor – um total de 1.568 mulheres foram assassinadas por homens no Brasil, o que representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Crianças estão presentes em grande parte das agressões contra mulheres, aponta levantamento - Foto: Joédson Alves/Agência Brasil.
Mais de 1,5 mil mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, aponta levantamento. – Foto: Joédson Alves/Agência Brasil.

Vítimas da violência

Emily Bispo da Cruz

20 anos de prisão para Antônio Aluízio da Conceição Marciano: esse foi o “valor” da vida retirada da jovem Emily Bispo da Cruz, de 20 anos, morta a facadas na frente do filho, pelo ex-namorado.

Emily Bispo da Cruz, de 20 anos, vítima de feminicídio. - Foto: Reprodução
Emily Bispo da Cruz, de 20 anos, vítima de feminicídio. – Foto: Reprodução

O crime aconteceu em 16 de março, quando Emily levava o filho dela, de 4 anos, para a escola. O caso, que aconteceu no bairro Pedra 90, em Cuiabá, foi registrado por câmeras de segurança e ganhou repercussão nacional.

Câmeras de segurança registraram o momento em que Emily foi atacada pelo ex-namorado. – Vídeo: Reprodução.

Cristiane Castrillon

37 anos de prisão: agora falemos do “valor” da vida interrompida da advogada cuiabana Cristiane Castrillon, de 48 anos, estuprada e morta pelo ex-policial militar Almir Monteiro dos Reis.

A vítima foi encontrada morta em um carro no Parque das Águas, em Cuiabá, no final da tarde do dia 13 de agosto de 2023. Cristiane era viúva e deixou duas filhas, de 14 e 20 anos de idade.

Advogada foi vítima de feminicídio. (Foto: Reprodução)
Advogada de 48 anos foi vítima de feminicídio. – Foto: Reprodução

Conforme sentença, Almir foi condenado pelos crimes de homicídio qualificado, estupro de vulnerável e fraude processual, mas foi absolvido da acusação de ocultar o corpo da vítima.

Débora Sander

1 ano e 9 meses de prisão, tornozeleira eletrônica e mudança de cidade para trabalhar: esse foi o “valor” pago pelo policial civil Sanderson Ferreira de Castro Souza, de 42 anos, após agredir a ex-esposa Débora Sander.

O investigador teve a transferência de Várzea Grande, onde atuava na 1ª delegacia de Polícia Civil, para Pontes e Lacerda (MT), autorizada pelo Conselho Superior de Polícia (CSP) de Mato Grosso, nessa quarta-feira (4).

Débora Sander denunciou o ex-companheiro em 2024, após agressões em Cuiabá. - Foto Redes Sociais
Débora Sander denunciou o ex-companheiro em 2024, após agressões em Cuiabá. – Foto Redes Sociais

Sanderson foi condenado, inicialmente, por estupro e violência psicológica contra Débora, que atua como personal trainer, mas deixou de responder pelo crime de violência sexual, tendo a pena reduzida de 15 anos de prisão para pouco mais de 1 ano.

Como frear os casos de violência?

Diferente dos dados apresentados Fórum Brasileiro de Segurança Pública no início desta reportagem, o número de mulheres assassinadas no país é ainda maior, segundo o Laboratório de Estudos de Feminicídios, da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Conforme o Laboratório, do total de casos registrados no ano passado no Brasil, 4.755 foram tentativas e 2.149 resultaram em morte, o que equivale a uma média de 5,89 mulheres assassinadas por dia.

Retornando ao levantamento do Fórum Brasileiro, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são os dois estados que continuaram entre os cinco com maiores taxas de feminicídio na série histórica 2021-2025.

Clique nos botões acima para alternar os dados.

FONTE: OBSERVATÓRIO CALIANDRA – MPMT

Ao longo de duas décadas, a Lei Maria da Penha (que completa 20 anos em 2026), se fortaleceu como um dos mais relevantes meios de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil, enquanto o feminicídio surgiu como uma qualificadora penal que, em 2024, passou a figurar como crime autônomo (Lei nº 14.994/2024), com pena de 20 a 40 anos de prisão – a maior do Código Penal Brasileiro.

Porém, como defende o levantamento, o problema agora não é mais a criação de novas leis, e sim a capacidade dos órgãos responsáveis em cumprir ou implementar as devidas penas.

Ainda conforme a Lei do Feminicídio, a pena pode ser aumentada de 1/3 até a metade, caso o crime for praticado:

Causas de aumento de pena
Passe o mouse ou toque para destacar.
Gestação, três meses pós-parto ou se a vítima é responsável por criança.
Vítima menor de 14 anos, maior de 60 anos, com deficiência ou doença degenerativa.
Crime praticado na presença física ou virtual de descendentes ou ascendentes.
Descumprimento de medidas protetivas de urgência da Lei Maria da Penha.
Uso de veneno, tortura, emboscada, fogo ou arma de uso restrito.
FONTE: CÓDIGO PENAL BRASILEIRO

Outra medida prevista pela lei é em relação à medida protetiva. Segundo o texto, caso o condenado descumprir a medida protetiva contra a vítima, a punição aumenta de prisão de 3 meses a 2 anos para 2 a 5 anos além de multa.

Multas para agressores

Em fevereiro deste ano, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) aprovou o Projeto de Lei “Meninas Calvi Cardoso” (PL 1414/2025), criado com objetivo de aplicar multa administrativa coercitiva de até R$ 1,7 milhão a agressores de mulheres no estado.

Segundo o PL, as multas serão aplicadas baseadas na Unidade Padrão Fiscal do Estado de Mato Grosso (UPF/MT), definida em R$ R$ 254,36 atualmente. Os casos de multa serão os seguintes:

 Tabela de valores de multas previstas no Projeto de Lei "Meninas Calvi Cardoso" - Fonte: ALMT.
Tabela de valores de multas previstas no Projeto de Lei “Meninas Calvi Cardoso” – Fonte: ALMT.

No momento, a proposta aguarda sanção do governador Mauro Mendes (UB).

O projeto de lei, que também é uma tentativa de frear os casos de violência, foi nomeado em homenagem ao caso de Cleci Calvi Cardoso e suas filhas Miliane, Manuela e Melissa – brutalmente assassinadas dentro de casa, em novembro de 2023, em um caso que ficou conhecido como Chacina de Sorriso. O assassino confesso, Gilberto Rodrigues, já possuía mandado de prisão por outro crime cometido anos antes, mas estava solto.

Além da pena

Para além de garantir a efetividade da pena, pesquisadoras alertam para a necessidade de políticas que também possam inserir na Educação o debate de gênero. Segundo a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Nealla Machado, é indispensável que esse tema também seja debatido dentro de sala de aula.

“Somos um estado extremamente conservador e, a partir disso, as mulheres ficam cada vez mais desprotegidas. Se não correlacionarmos a causa da violência de gênero ao machismo, não conseguiremos avançar nesse debate. Enquanto não debatemos gênero nas escolas, não discutimos masculinidades com os nossos meninos e meninas, esses números infelizmente não vão mudar ”, avalia a pesquisadora.

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