Servidor é preso suspeito de transportar droga em carro da Prefeitura de Cuiabá

A prisão ocorreu na capital, e é parte da Operação Conductor, deflagrada nesta semana para desarticular uma organização criminosa que atuava no tráfico de drogas e na lavagem de dinheiro em MT

A Polícia Civil prendeu, na manhã desta quinta-feira (4), um servidor temporário da Prefeitura de Cuiabá acusado de transportar drogas em um veículo oficial do município. A prisão ocorreu no bairro Duque de Caxias, na capital, e é parte da Operação Conductor, deflagrada nesta semana para desarticular uma organização criminosa que atuava no tráfico de drogas e na lavagem de dinheiro em Mato Grosso e outros estados.

Segundo as investigações, o homem de 49 anos recebeu entorpecentes no terminal de ônibus de Várzea Grande, em março deste ano, e os transportou em um carro da prefeitura. A droga foi entregue por uma mulher identificada como irmã do líder do grupo criminoso, um advogado de Várzea Grande conhecido como “Doutor”.

prisao servidor prefeitura cuiaba PJC
92 mandados contra o tráfico de drogas já foram cumpridos. (Foto: PJC/MT)

O servidor estava entre os quatro alvos de prisão que ainda permaneciam foragidos. Ele foi localizado por uma equipe da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) e está à disposição da Justiça.

A Operação Conductor foi deflagrada pela Delegacia de Repressão a Crimes de Fronteira (Defron) e pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), ambas de Cáceres. Até agora, foram cumpridos 92 dos 95 mandados judiciais, entre eles 16 de prisão preventiva, além de bloqueios de valores bancários, sequestro de veículos e apreensão de munições.

“Doutor” no comando de um império criminoso

No centro das investigações está o advogado Douglas Antônio Gonçalves de Almeida, de 32 anos, morador de Várzea Grande. Ele foi preso preventivamente e é apontado como o líder do esquema que movimentou mais de R$ 100 milhões com o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro. Conforme a Polícia Civil, Douglas controlava todas as etapas da atividade criminosa: do transporte na região de fronteira ao armazenamento e distribuição dos entorpecentes na Grande Cuiabá.

Além dele, também foram alvos da operação sua mãe, irmã, esposa e cunhada, todas suspeitas de atuarem diretamente no esquema — seja recebendo e distribuindo drogas, seja movimentando grandes valores em contas pessoais ou em nome de empresas ligadas à família.

“O líder determinava os dias em que o transporte seria realizado, mantinha o controle das viagens, pagava os envolvidos e definia os destinatários. Era um comando centralizado e extremamente organizado”, afirmou a delegada Bruna Laet, titular da Defron.

Polícia prende advogado suspeito de liderar organização criminosa que movimentou R$ 100 milhões. (Foto: PJC-MT)
Polícia prende advogado suspeito de liderar tráfico de drogas movimentou R$ 100 milhões. (Foto: PJC-MT)

Empresas de fachada e negócios de fachada

As investigações mostraram que o grupo lavava dinheiro por meio de empresas de fachada ou negócios com movimentações financeiras incompatíveis com sua estrutura. Um dos casos mais simbólicos é o de uma empresa de energia solar registrada em Cuiabá, que movimentou R$ 23 milhões apenas em 2024, embora não tivesse estrutura compatível com esse volume.

Outro exemplo é uma farmácia fictícia registrada no bairro Dom Aquino, também na capital. O prédio sequer existe, mas a empresa teve seu capital social aumentado de R$ 5 mil para R$ 800 mil e movimentou R$ 13 milhões em créditos bancários em um único ano.

A polícia também identificou uma lanchonete que vendia sonhos e uma distribuidora de bebidas usadas para “esquentar” o dinheiro do tráfico.

“É evidente a discrepância entre o que era declarado e os valores movimentados. Esses negócios eram utilizados exclusivamente para esquentar o dinheiro do tráfico”, ressaltou a delegada.

A investigação começou com 153 kg de cocaína

A origem da operação remonta à apreensão de 153,8 kg de cocaína feita pela Polícia Rodoviária Federal em 12 de abril de 2024, em Cáceres. A droga era transportada por um motorista de van que simulava atuar no transporte de passageiros. Ele recebia R$ 30 mil por viagem e movimentou mais de R$ 1 milhão em dois anos.

Esse motorista fazia a ponte entre o grupo do “Doutor” e facções criminosas que atuam no sistema penitenciário de Mato Grosso. A conexão era feita por um intermediário de 34 anos, que movimentou R$ 3,7 milhões em três anos e possuía ligação direta com organizações criminosas do estado.

Outro investigado que chamou atenção foi um trabalhador da perfuração de poços, residente em Cáceres, que apesar de declarar vida humilde, teve R$ 6 milhões creditados em sua conta bancária apenas em 2024.

Alvos em cinco estados

Ao todo, foram identificados 31 envolvidos diretamente no esquema, além de oito empresas. A Justiça expediu mandados em Mato Grosso, Maranhão e Pernambuco, sendo eles:

  • 16 mandados de prisão preventiva
  • 35 mandados de busca e apreensão
  • 39 bloqueios de contas bancárias
  • 5 sequestros de veículos
  • Apreensão de 190 munições

As ordens foram cumpridas em Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres (MT), São Luís (MA) e Jaboatão dos Guararapes (PE). A operação continua com buscas pelos últimos foragidos e análise de documentos e bens apreendidos.