Vanessa Ricarte: quando a escuridão do feminicídio apaga um brilho
Vanessa foi a segunda vítima de feminicídio registrado em fevereiro de 2025
“Linda”, “cheia de luz”, “segura”, “uma profissional dedicada”. É assim que amigos, familiares e colegas descrevem Vanessa Ricarte, de 42 anos. Jornalista, irmã, madrinha, amiga para todas as horas, Vanessa era aquela pessoa que iluminava qualquer lugar onde entrava. Seu sorriso não era apenas expressão de simpatia: era ponte, era abraço, era convite para a vida. Mas, no dia 12 de fevereiro de 2025, essa luz foi apagada de forma brutal. Apagada por alguém que dizia amá-la.

Na data, a vida dela foi arrancada de forma covarde! O que antes era luz, tornou-se escuridão, luto. O que antes era futuro, virou lembrança! Vanessa foi assassinada pelo ex-noivo, Caio Nascimento, dentro da própria casa, no bairro São Francisco, em Campo Grande. Um lar que deveria acolher, mas que se tornou cenário de um crime brutal.
Naquela tarde de quarta-feira, Vanessa voltou para casa acompanhada de um amigo. Vinha de um lugar que, em tese, representava segurança: a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher). Lá, havia registrado um boletim de ocorrência e solicitado uma medida protetiva contra Caio. O que ela queria era simples e justo: viver em paz!
Mas, antes que pudesse sentir alívio, encontrou o agressor à sua espera. Foi atacada com três facadas no tórax, sem chance de defesa.
Vanessa foi levada ao hospital, mas não resistiu. Sua vida, tão cheia de planos, foi interrompida em questão de minutos. Poucos minutos foram suficientes para que o amor que ela acreditou um dia existir, se revelasse como posse, controle e violência.
O sonho que virou tormento
Vanessa tinha o sonho de casar, de construir uma família, de criar um futuro a dois. Falava disso com brilho nos olhos. Dias antes de tudo acontecer, ela e Caio haviam dado entrada no processo de habilitação para o casamento.
Mas, o que parecia felicidade escondia um peso silencioso. Segundo o relatório do Gaeco, Vanessa viveu “tormentosos últimos dias de vida”.
Caio invadia seus espaços físicos e virtuais. Controlava horários, vigiava encontros, exigia respostas imediatas. Não aceitava que ela estivesse fora do alcance dos seus olhos.
Um exemplo disso tudo, foi quando Vanessa participava de um evento de trabalho quando recebeu uma sequência sufocante de mensagens e ligações dele. Mesmo enviando fotos e explicações, o controle não cessava. Era como se cada passo dela tivesse que passar pela aprovação de um homem incapaz de amar sem aprisionar.
Laços que nem a morte desfaz
Vanessa era madrinha de um menino de dois anos que hoje ainda a procura nas fotografias. A mãe do menino, Alessandra Izaac, não era apenas amiga: era irmã de alma de Vanessa. Conversavam diariamente, partilhando desde as pequenas alegrias até os momentos mais difíceis.

“Nós sempre conversamos o tempo todo e, depois, ela ia pra minha casa e ainda tínhamos muito assunto, muita afinidade. Nossa conexão era surreal. Era como se uma adivinhasse o pensamento da outra”, afirma com saudade.
Foi para Alessandra que Vanessa abriu o coração sobre os abusos. Com vergonha, hesitou em denunciar. Mas a amiga insistiu: “vai, eu vou com você”.
No dia seguinte, Vanessa esteve na casa de Alessandra pedindo ajuda até para comer, pois estava há cinco dias tentando fugir do agressor. Na hora de ir embora, o pequeno Armin a abraçou com força e chorou, como se quisesse segurá-la ali. Hoje, esse abraço é lembrado como um pressentimento. Foi a última vez que se viram.
As últimas palavras
Horas antes de morrer, Vanessa gravou áudios contando como se sentia. Sua voz carregava um cansaço profundo, como se estivesse exaurida de tentar explicar que a violência que sofria era real, que o medo que sentia era legítimo. Ela não sabia, mas suas palavras se tornariam quase um testamento.
Nelas, não havia ódio. Havia frustração, tristeza, uma tentativa de entender como alguém que ela amou podia ter se transformado em ameaça. Mais que isso, havia a consciência de que o feminicídio era um destino que rondava muitas mulheres.
“Eu fui falar com a delegada e explicar toda a situação. Ela me tratou bem fria, seca, toda hora me cortava. Eu queria ver o histórico da pessoa [Caio] e falou para mim que não podia passar”. Na sequência, a delegada teria dito que Vanessa já sabia dos históricos de agressões de Caio.
Em seguida, Vanessa lamentou que a Deam não entendeu a dimensão da situação, e que Caio já tinha dito que só sairia de casa com a polícia. “Mas de qualquer forma, eu vou ter que ir lá na casa”. Além disso, em áudio, Vanessa afirmou à amiga que a medida protetiva ainda não tinha sido assinada porque estava dependendo de um mandado judicial.
Quantas denúncias são necessárias para transformar um homem em assassino?
Caio Nascimento não se tornou perigoso de um dia para o outro. Antes de Vanessa, outras mulheres como mãe, irmã, namoradas, já haviam sentido o peso de sua violência. Não havia um perfil específico: bastava ser mulher para estar em risco.
Ao todo, foram 14 denúncias por violência doméstica contra mulher. Um histórico que deveria ser suficiente para qualquer um entender que esse homem era um perigo.
Mas o que aconteceu com Vanessa, mostra o que o feminicídio é de fato: não um crime repentino, mas o último capítulo de uma história de abusos, ameaças e controle.
Tinha outras sete ocorrências registradas em seu nome em casos de ameaça, roubo e difamação. Entre os boletins de ocorrência feitos contra Caio, tem o de uma ex-namorada, registrado em 2020. A jovem foi agredida e acabou no hospital com queimaduras no rosto e braços.
As lesões pareciam ser fricção no asfalto. Na época, a vítima relatou à polícia que Caio era usuário de drogas e muito agressivo.
Em outro caso, registrado em 2023, foi denunciado por violência psicológica contra mulher. Ele não aceitava o fim do relacionamento, então passou a perseguir a ex-companheira e fazer ameaças.
Caio tinha históricos com uso de drogas. A defesa alega, inclusive, que ele estava sob efeitos quando assassinou Vanessa.
Ele foi denunciado por feminicídio qualificado por motivo fútil, cárcere privado e violência psicológica ainda em fevereiro deste ano. A promotoria da 19ª Promotoria de Justiça, afirmou em documento, que o acusado agiu de forma repugnante e torpe. Ela ainda pediu indenização não inferior a R$10 mil para a família de Vanessa.
O músico virou réu pelo crime em 19 de março deste ano. Para o juiz Carlos Alberto Garcete de Almeida, “a materialidade do fato está presente, neste momento inaugural, no caderno investigatório, assim como parece haver indícios suficientes de autoria. Portanto, presente a justa causa para a propositura da ação penal”, registrou no recebimento da denúncia.
Porém, o magistrado considerou inadequada a acusação de cárcere privado, porque não ficou demonstrado como o músico manteve a jornalista presa e ainda que o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) não demonstrou evidências de que Vanessa sofria violência psicológica.
Segundo o MPMS, ainda não há prazo para conclusão da análise do inquérito e formalização da denúncia contra Caio. “A instrução processual ainda não foi concluída, estando pendente a realização do interrogatório. Há, ainda, dois recursos e um mandado de segurança a serem julgados”, afirmou em nota.
O vazio que fica
Vanessa deixou um irmão que a descreve como filha dedicada e irmã protetora. Deixou amigos que, até hoje, esperam vê-la entrar pela porta com um sorriso. Deixou trabalhos inacabados, sonhos interrompidos, músicas que não serão tocadas. Tocava piano e violão, falava com a mesma paixão sobre beleza e sobre culinária, sobre livros e sobre viagens. Venceu a obesidade com disciplina e queria inspirar outras mulheres a se amarem como são.
“Era uma filha responsável e muito exemplar! Irmã protetora, uma tia muito divertida, cuidadosa, muito amorosa. Sempre próxima, sempre disposta a ajudar. Vanessa, sempre foi luz por onde passou! Sempre buscou ajudar e ser uma pessoa justa. Até hoje, parece que ainda não caiu a ficha, que a perdemos de forma tão trágica!”
Walter Ricarte, irmão de Vanessa.
Sua vida era prova de que é possível se reinventar. E é por isso que sua morte é tão cruel: ela não foi levada por doença, acidente ou acaso. Foi arrancada por um ato de ódio mascarado de amor.
Falar de Vanessa é falar de um feminicídio que não deveria ter acontecido. Aliás, é um crime que nunca poderia acontecer com nenhuma mulher. É lembrar que não se trata de ciúme, nem de “crime passional”, trata-se de poder, de controle e de violência. É lembrar que cada alma que é perdida assim deixa um buraco que nunca será preenchido.
Que sua história não se perca entre as páginas de um processo ou nas estatísticas anuais. Que o nome de Vanessa Ricarte siga vivo, brilhando e ecoando, e servindo como alerta, como memória, como promessa de que não descansaremos até que nenhuma mulher precise temer por sua vida simplesmente por ter amado alguém.
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🚨 Denuncie a violência contra a mulher
Violência doméstica — seja psicológica, física, moral ou verbal — é crime e precisa ser combatida. Saiba como denunciar:
Emergência: se a agressão estiver acontecendo, ligue 190 imediatamente;
Central de denúncias: disque 180. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia, todos os dias. Também é possível denunciar via WhatsApp: (61) 9610-0180;
Presencial: procure a delegacia mais próxima ou acione a Polícia Militar pelo 190;
Em Mato Grosso do Sul as denúncias de violência de gênero podem ser feitas de maneira on-line. Clique aqui e faça a denúncia.
⚠️ Violência contra a mulher não pode ser ignorada. Basta! Denuncie.
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