Super El Niño ganha força e pode mudar o clima no Brasil; veja os impactos previstos
Modelos climáticos indicam aquecimento excepcional do Oceano Pacífico, com potencial para alterar o regime de chuvas, ondas de calor, queimadas e enchentes
As projeções para um possível Super El Niño em 2026 estão ganhando força e começam a preocupar pesquisadores. Os principais modelos climáticos internacionais indicam que o Oceano Pacífico Equatorial poderá registrar um aquecimento excepcional nos próximos meses, cenário capaz de alterar o regime de chuvas, intensificar ondas de calor, aumentar o risco de secas e enchentes e provocar reflexos na agricultura, na economia e na saúde pública.
Super El Niño impacta todas as regiões do Brasil (Foto: Ana Karla Flores/ Primeira Página)
Caso as projeções se confirmem, os impactos poderão ser sentidos em diferentes regiões do Brasil, influenciando desde a produção de alimentos e a geração de energia até o abastecimento de água, o turismo e a ocorrência de doenças transmitidas por mosquitos.
Segundo o pesquisador do Laboratório de Ciências Atmosféricas (LCA) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Thiago Rangel Rodrigues, os modelos climáticos apresentam uma tendência consistente de fortalecimento do fenômeno, embora ainda exista um importante grau de incerteza.
“Os modelos climáticos mostram, de forma bastante consistente, que o aquecimento do Pacífico continuará aumentando durante o segundo semestre.”
Modelos indicam aquecimento excepcional
Probabilidade de intensidade do Super El Niño
As projeções do Climate Forecast System (CFS), desenvolvido pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), passaram a simular valores próximos de +4,8°C na região conhecida como Niño 3.4, enquanto a média permanece acima de +4°C durante o fim de 2026.
Para efeito de comparação, um evento passa a ser considerado muito forte, popularmente chamado de Super El Niño, quando as anomalias da temperatura da superfície do mar permanecem próximas ou superiores a +2°C durante vários meses consecutivos.
Apesar da tendência de aquecimento, Thiago explica que ainda existe a chamada barreira de previsibilidade da primavera, período em que os modelos climáticos apresentam maior dificuldade para estimar com precisão a intensidade do fenômeno.
“O aquecimento anômalo do Pacífico Equatorial altera a circulação atmosférica em escala global, provocando mudanças significativas nos padrões de precipitação e temperatura em diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil.”
O que pode mudar no Brasil?
Quando o aquecimento do Pacífico atinge níveis extremos e permanece por um longo período, aumenta a probabilidade de eventos climáticos severos, como:
ondas de calor mais intensas;
secas prolongadas;
chuvas extremas;
enchentes;
deslizamentos;
aumento do risco de queimadas.
Historicamente, os efeitos do El Niño variam conforme a região do país.
No Sul, normalmente ocorre aumento das chuvas, favorecendo enchentes, inundações e deslizamentos.
Já nas regiões Norte e Nordeste, a tendência é de redução das chuvas, temperaturas acima da média e maior risco de incêndios florestais.
Essas alterações afetam diretamente a disponibilidade de água, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento das cidades, a infraestrutura e diversos setores da economia.
Como Mato Grosso do Sul pode ser afetado?
Em Mato Grosso do Sul, os efeitos costumam variar de acordo com as características climáticas de cada região.
O estado ocupa uma posição estratégica na América do Sul e recebe forte influência da umidade transportada pela Amazônia. Durante episódios de El Niño, a circulação atmosférica favorece a atuação de frentes frias e sistemas de baixa pressão sobre o centro-sul do continente.
Como consequência, a região sul do estado tende a registrar volumes de chuva acima da média, enquanto as regiões norte e oeste podem apresentar comportamento mais variável, dependendo da intensidade do fenômeno e da atuação de outros sistemas atmosféricos.
Os dois principais biomas sul-mato-grossenses respondem de forma distinta às mudanças climáticas.
No Pantanal, alterações na distribuição das chuvas podem modificar o ciclo natural das cheias e vazantes, afetando a biodiversidade, a navegação, o turismo e a pecuária.
No Cerrado, a irregularidade das precipitações representa um dos principais desafios para a agricultura.
Caso as mudanças coincidam com períodos naturalmente secos e temperaturas elevadas, também poderá haver aumento do risco de incêndios florestais no Pantanal, reforçando a importância do monitoramento das condições meteorológicas, hidrológicas e da umidade da vegetação.
Além dos efeitos ambientais, um Super El Niño pode provocar reflexos econômicos importantes.
Chuvas intensas podem elevar os custos de manutenção de rodovias, dificultar o transporte de cargas e comprometer o escoamento da produção agrícola.
Mudanças no regime das cheias também podem afetar o turismo, especialmente no Pantanal.
Na área de recursos hídricos, alterações na distribuição das chuvas influenciam diretamente a recarga dos reservatórios, o nível dos rios e a disponibilidade de água para abastecimento, irrigação e geração de energia.
Saúde pública também entra em alerta
As mudanças climáticas provocadas pelo fenômeno também podem aumentar os riscos à saúde.
Períodos mais quentes e úmidos favorecem a proliferação do mosquito Aedes aegypti, elevando a possibilidade de surtos de dengue, chikungunya e zika.
Já as chuvas intensas aumentam o risco de doenças relacionadas à contaminação da água. Por outro lado, períodos prolongados de fumaça decorrentes de queimadas comprometem a qualidade do ar e agravam doenças respiratórias, principalmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
Cenário ainda depende da evolução do oceano
Embora os modelos indiquem a possibilidade de um episódio de grande intensidade, Thiago Rangel Rodrigues ressalta que ainda é cedo para confirmar a força do fenômeno.
Segundo o pesquisador, a intensidade do El Niño dependerá da evolução das condições do oceano e da atmosfera nos próximos meses, à medida que novas observações forem incorporadas aos modelos climáticos.
Até lá, pesquisadores continuarão monitorando o comportamento do Oceano Pacífico para verificar se as projeções de um possível Super El Niño histórico serão confirmadas.
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