Cuiabá já andou nos trilhos: bondinho já foi transporte dos cuiabanos

São 306 anos de Cuiabá com muitos desafios no transporte público.

Muito se fala em VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) e BRT (Bus Rapid Transit), sistemas de transporte rápido que Cuiabá – que completa 306 anos nesta terça-feira, 8 de abril, já tentou e tenta implantar. Mas o que muita gente talvez não sabe é que a capital mato-grossense já conheceu os trilhos no passado.

Cuiabá já teve bondinhos com tração animal – puxado por burros -, que cortavam a cidade que à época tinha 670 mil a menos que hoje. O transporte, nem tão rápido quanto o prometido para os tempos atuais, foi realidade e há provas. Já as outras duas opções de projeto de mobilidade ainda estão pelo caminho.

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Bondinho andando na Rua Pedro Celestino. (Foto: Reprodução)
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Os 3 tipos de transporte com trilhos de Cuiabá, sendo que os dois últimos ficaram só no papel. (Foto: Reprodução)

O bondinho: os trilhos ficaram no passado (1891-1918)

Se a história de Cuiabá fosse uma linha reta, os trilhos do bondinho puxado a cavalo seriam uma curva marcante. O transporte operou entre 1891 e 1918, ligando o Centro à região do Porto. Diferente do VLT, que nunca saiu do papel, o bondinho circulou por décadas, movido pela força animal.

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Imagem antiga mostra como eram os trilhos do bondinho no século 19 em Cuiabá (Livro Imagem da Cidade/Editora Entrelinhas)

Os veículos, idênticos aos de Montevidéu (Uruguai), percorriam trilhos que se estendiam do Largo da Mandioca (atual Praça da Mandioca) até a Praça da República, passando por pontos como o Beco do Candeeiro e a Praça Alencastro. A iniciativa partiu da Companhia Progresso Cuyabano, Ferro, Carril e Matadouro, formada em 1889 por portugueses e cuiabanos após anos de debates na Câmara Municipal.

O fim do bondinho veio com a motorização. Em 1918, o primeiro carro — um Fiat vermelho adquirido pela Casa Dorsa — chegou à cidade, marcando o início de uma nova era. Os animais que puxavam os vagões foram substituídos por motores e os trilhos caíram no esquecimento.

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Primeiro carro em Cuiabá. (Foto: Reprodução)

O VLT: o sonho que virou pesadelo (2012-2024)

Um século depois, Cuiabá voltou a sonhar com os trilhos. O VLT, sistema elétrico que ligaria a capital a Várzea Grande, foi anunciado como solução para a mobilidade urbana durante a Copa do Mundo de 2014. Mas o projeto, orçado em R$ 1,4 bilhão, nunca saiu do papel.

Trilhos do VLT estão sendo retirados em Cuiabá e Várzea Grande. (Foto: Reprodução)
Trilhos do VLT estão sendo retirados em Cuiabá e Várzea Grande. (Foto: Reprodução)

Apenas 30% das obras foram concluídas antes da paralisação. Investigações revelaram superfaturamento e corrupção, culminando na prisão do então governador Silval Barbosa, em setembro de 2015. Os trilhos importados, já instalados, foram arrancados, e a região metropolitana seguiu sem um transporte eficiente.

Em 2024, o fim da novela chegou com a venda dos trilhos para a Bahia e o dinheiro que tanto se investiu voltou na velocidade dos animais que puxavam carroça.

O BRT: a nova aposta (2022–…)

Agora, a esperança está no BRT. O contrato, assinado em 2022 por R$ 468 milhões, previa entrega para outubro de 2023, mas menos de 20% das obras foram concluídas. O governo rescindiu o acordo com o consórcio responsável, alegando descumprimento de prazos.

Obras do BRT em Cuiabá. (Foto: Reprodução)

Em audiência no dia 17 de março de 2025, foi informado que o Estado já pagou R$ 117 milhões ao consórcio, que se comprometeu a concluir até meados deste ano o trecho entre o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) e o Hospital do Câncer, no CPA.

A novela dos trilhos: um futuro incerto

Enquanto protestos de comerciantes e atrasos se acumulam, Cuiabá completa 306 anos com uma dívida histórica: transporte público ineficiente. O bondinho, que operou por 27 anos, hoje vive apenas em fotografias. O VLT, engavetado. O BRT com obras lentas.

Obras do BRT Avenida da FEB em Várzea Grande. (Foto: Marcos Vergueiro/Secom-MT)
Obras do BRT Avenida da FEB em Várzea Grande. (Foto: Marcos Vergueiro/Secom-MT)

A cidade que já andou sobre trilhos agora espera, mais uma vez, que o futuro chegue — desta vez, sem descarrilar.

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