Projeto de bicicletas compartilhadas é esquecido há quase 2 anos em Campo Grande
Mesmo com lei sancionada em janeiro de 2024, sistema ainda não saiu do papel; especialista aponta benefícios e alerta para riscos de má gestão
Quase dois anos após a aprovação do projeto que cria o sistema de bicicletas compartilhadas em Campo Grande, a proposta segue sem previsão para sair do papel. A iniciativa, sancionada pela prefeita Adriane Lopes (PP) em janeiro de 2024, previa a implementação de um serviço de aluguel de bicicletas públicas, com pontos de retirada e devolução espalhados pela cidade.

O texto foi elaborado pelo próprio Executivo e aprovado pela Câmara Municipal em 2023, com o objetivo de incentivar um transporte mais sustentável, acessível e integrado ao trânsito da Capital. No entanto, desde então, nenhuma estação foi instalada e nenhuma operadora selecionada para administrar o sistema.
O sistema de bicicletas compartilhadas são comuns em grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Curitiba.
Segundo publicação no Diogrande (Diário Oficial de Campo Grande), de 24 de janeiro de 2024, o serviço ficaria sob responsabilidade de uma Operadora de Modal de Transporte Ativo (OMTA), ainda não definida.
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Especialista vê potencial e alerta para desafios
A engenheira civil e doutora em Ciências Ambientais Rocheli Carnaval Cavalcanti avalia que o sistema de bicicletas compartilhadas traria impactos positivos para Campo Grande, tanto na mobilidade urbana quanto na saúde e no meio ambiente.
Segundo ela, estudos internacionais mostram que a implantação desses sistemas está associada a maior uso da bicicleta, especialmente quando as estações são bem localizadas.
“Um sistema de bicicletas compartilhadas pode efetivamente ampliar o uso da bicicleta como modo de transporte urbano, não só lazer, contribuindo para mais deslocamentos ativos. Como também pode ocorrer um incentivo ao uso das ciclovias locais”, disse.
Além disso, Cavalcanti destaca benefícios ambientais e econômicos. Experiências europeias indicam que programas do tipo ajudam a reduzir emissões de gases poluentes, estimular hábitos saudáveis e movimentar o comércio local.
“Para Campo Grande seria uma excelente opção do ponto de vista de melhorar o ordenamento urbano, melhoraria a questão de estacionamento no centro da cidade, e revitalizariam as praças”, explica a engenheira.
Outro ponto levantado pela especialista é a soma com o transporte público da capital.
“Para Campo Grande isso sugere que um sistema de bicicletas bem estruturado pode servir como complemento e reforço à rede de transporte existente, aumentando a flexibilidade da mobilidade urbana”, disse.
Riscos e fragilidades da gestão pública
Apesar do potencial, a especialista alerta que a boa gestão é decisiva para o sucesso do programa. Entre os principais riscos estão a lentidão administrativa, contratos frágeis e falta de planejamento territorial.
“Notícias locais registraram criação de lei e planos, mas também atrasos na publicação de editais e execução. Programas bem concebidos podem emperrar por falta de prioridade política, cronogramas mal geridos ou troca de gestão. Sem implantação rápida e transparente, a expectativa pública se desgasta”, diz a engenheira.
Outros desafios incluem segurança cicloviária, combate a furtos e vandalismo, sustentabilidade financeira e proteção de dados dos usuários.
“Isso exige monitoramento, equipes de reequilíbrio, tecnologia robusta e políticas de responsabilização, custos que a prefeitura precisa prever. Estudos e relatórios apontam esses desafios como fatores frequentes de insucesso”, afirma.
O que diz o Município?
Em nota ao Primeira Página, a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) informou que o estudo que embasa o sistema “está na fase final para seguir os trâmites e realizar a publicação do edital”.
O órgão reafirmou o compromisso em “tornar o trânsito da Capital cada vez mais seguro e eficiente”.
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