Quase 8 anos depois, filha mantém banca do pai morto atropelado em Cuiabá e espera justiça
Francisco Lúcio Mara morreu ao tentar atravessar a avenida; filha mantém a banca de verduras e convive com a ausência que mudou a rotina da família.
Há quase oito anos, o verdureiro Francisco Lúcio Mara morreu ao tentar atravessar a Avenida Miguel Sutil, em Cuiabá. O atropelamento mudou para sempre a rotina da família e se tornou um dos casos que simbolizam as perdas irreversíveis causadas por decisões no trânsito.
Enquanto a filha mantém a banca de verduras que era do pai, a dor permanece e a sensação de que a Justiça caminha lentamente reacende o debate sobre responsabilização e os limites da legislação brasileira.

“A população não está consciente de que, quando uma viatura está com giroflex e sirene ligados, é porque precisamos nos deslocar de forma emergencial. Muitas vezes é preciso até avançar o sinal. É uma vítima grave, e cada minuto conta”, explica o coronel Jean Oliveira, do Corpo de Bombeiros.
Colisões, quedas e atropelamentos se repetem diariamente nas ruas da Capital. Para alguns, as sequelas duram a vida inteira. Para outros, o socorro não chega a tempo.
A perda
Há quase oito anos, a vida de Francy Silva mudou para sempre. O pai dela, o verdureiro Francisco Lúcio Mara, morreu atropelado ao tentar atravessar a Avenida Miguel Sutil, em abril de 2018.
“Quase oito anos agora, em abril. Mudou muito. Na vida profissional, na vida familiar. A falta que meu pai faz… Hoje é tudo diferente. Eu não tenho mais aquele alicerce que eu tinha. A gente vive do que ele deixou e segue na luta”, conta.

A motorista, a médica Letícia Bortolini, envolvida no atropelamento não prestou socorro e deixou o local. Posteriormente, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso entendeu que não houve dolo eventual nem provas de embriaguez. A decisão também destacou que a vítima estava na pista de rolamento e que, à época, não havia faixa de pedestre no trecho.
Após o acidente, foi instalada uma faixa e um semáforo no local. A mudança veio tarde para a família, que ainda espera por uma resposta da Justiça.

Hoje, Francy mantém a banca de verduras que era do pai. “É um sentimento que machuca demais. Mas eu sinto orgulho, porque foi com isso que ele criou eu e minhas irmãs, com honestidade e trabalho.”
Amor interrompido
Outro caso que marcou a Avenida Miguel Sutil foi o de Luiz Henrique, de 20 anos. Ele morreu após ser atingido por um carro enquanto pilotava uma motocicleta ao lado da namorada.
Na manhã do acidente, o casal trocou declarações de amor. Porém, minutos depois, tudo mudou.
“A gente estava no auge da nossa felicidade. Ele estava radiante, muito feliz. Menos de cinco minutos depois aconteceu tudo aquilo. Ele era muito amado por toda a família. Em datas comemorativas, ninguém consegue conter as lágrimas”, relata a namorada, Thainá França.
As motoristas envolvidas nos dois casos respondem por homicídio culposo, quando não há intenção de matar e aguardam julgamento em liberdade. Tragédias como essas reacendem o debate sobre responsabilização e os limites da legislação de trânsito no país.
“O homicídio culposo no trânsito tem pena de dois a quatro anos de detenção. É um crime em que a prescrição ocorre rapidamente. Polícia e Judiciário são reféns da legislação vigente. Muitas vezes fazemos uma investigação bem feita, mas a lei é complacente e essas pessoas acabam em liberdade”, afirma o delegado Christian Cabral.
A sensação, para familiares, é de frustração. “Eu queria muito falar que confio na Justiça e espero que aconteça. Mas não é a realidade”, desabafa Francy.
A superação
Nem todos os acidentes terminam em morte. Muitos deixam cicatrizes físicas e emocionais profundas. É para o Hospital Municipal de Cuiabá que vítimas em estado grave são encaminhadas. A unidade é referência em trauma e alta complexidade.
“Cerca de 70% dos traumas graves de urgência estão ligados a acidentes automobilísticos, principalmente envolvendo motos. Muitos chegam com fraturas expostas e vão direto para o centro cirúrgico”, explica Vítor Spallati, do departamento de trauma.
Os números refletem a gravidade do problema. No ano passado, das 99 mortes no trânsito registradas em Cuiabá, 86 vítimas eram homens e 13 mulheres.
Alessandro Sartori é um desses sobreviventes. Após um acidente de moto, ficou 51 dias internado e perdeu uma perna. Entre a dor e a depressão, escolheu recomeçar.
“Quatro meses depois de casado sofri o acidente. Minha maior dor era ser um peso para minha esposa”, conta.
Hoje, ele lidera o Projeto Recomeço, que oferece apoio a pessoas amputadas. “Faço visitas, converso, tiro dúvidas, compartilho minha história. A pessoa está bem e, de repente, cai num vale. A gente ajuda ela a atravessar sem se afundar.”, disse.
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