Estava ontem zapeando na TV, em busca de um programa que fosse rápido até que o sono chegasse. E me deparei com Ozzy Osbourne, falecido no último dia 22 aos 76 anos.
Na verdade, com ele, a esposa, Sharon, e o filho, Jack em Os Osbourne: Investigação Paranormal.
(Foto> Reprodução/Netflix)
A série, da HBO Max, tem 28 episódios bem curtos e foi gravada durante a pandemia da covid.
Um caça-níqueis, com certeza.
Uma demonstração de amor de um pai para ancorar o novo projeto do filho.
Com Ozzy, Sharon e um cachorrinho acomodados em poltronas confortáveis, Jack mostra vídeos de Youtube com teor sobrenatural e os pais dão a sua opinião sobre serem verdadeiros ou não.
O Príncipe das Trevas, como Ozzy era conhecido, devido à sua performance demoníaca nos palcos, mostra-se, em sua vida privada, um homem cético quanto ao sobrenatural.
Ele contesta vários dos vídeos e busca explicações lógicas para as gravações, muito ao contrário do que poderiam pensar as pessoas que só o conheciam o astro pelo tal episódio do morcego.
Era década de 80, Ozzy costumava morder bonecos de animais no palco para simular fúria, insanidade, rebeldia.
Um dia, em um show, um fã jogou um morcego morto em direção ao ídolo.
Ozzy não teve dúvidas.
Pegou o bicho e arrancou sua cabeça com os dentes.
Só que ele não imaginava ser um animal de verdade.
Como resultado, por ter engolido sangue e células do morcego, o cantor teve de ser internado por quase uma semana para se prevenir contra uma contaminação.
Ozzy é uma lenda. Uma fábrica de polêmicas.
Certa vez, peladão, encontrou um ladrão na casa dele e brigou com o sujeito do jeito que veio ao mundo.
Em outra, foi descoberto por Sharon com uma lista interminável de amantes. Até a cabeleireira do astro não escapou do sex appeal do cidadão.
Ex-líder do Black Sabbath, ícone do heavy metal, Ozzy sempre foi confundindo com um adorador do diabo.
A banda, inclusive, chegou a ser convidada para tocar durante um ritual satânico por um grupo de malucos.
Evidentemente, declinaram da ideia.
Afinal, eram apenas personagens disputando espaço no mundo do rock pesado.
A negativa rendeu a Ozzy e aos demais uma maldição lançada pelo líder da seita demoníaca.
Para escapar de seus efeitos, eles foram aconselhados a usar cruzes em seu figurino.
Se deu certo ou não, difícil dizer.
A vida de Ozzy, apesar da grande fortuna e fama que acumulou, não teve nada de glamour.
Viciado em drogas, álcool e em sexo, o príncipe já aparentava uma saúde frágil nos anos 2000, quando estrelou o reality Os Osbourne, um incrível sucesso mundial.
O programa mostrava a rotina da família: Ozzy detonado pelos anos de abuso, o relacionamento entre tapas e beijos com Sharon e os filhos malucos – além de Jack, Kelly também participava.
A filha mais velha, Aimee, vocalista da banda Aro, não quis aparecer por ser reservada e, aparentemente, mais normal que o restante da família. Ozzy ainda teve dois filhos de um primeiro casamento.
A série foi meio que um renascimento para Ozzy, que andava sumido do show bizz.
Assim como, em 5 de julho, ele voltou a se unir ao Black Sabbath para um show de despedida, em Birmingham, na Inglaterra, onde nasceu o Black Sabbath e, para alguns estudiosos, o próprio heavy metal. Sentado, pela falta de condições físicas, ele emocionou o público ao cantar Mamma I´m Coming Home, música de 1991que fez em homenagem ao grande amor da vida, Sharon.
A canção é uma balada romântica e está entre as 20 melhores músicas de Ozzy segundo um ranking feito pela revista Rolling Stones.
O top20 traz, ainda, Paranoid, Iron Man e War Pigs (1970) , Sabbath Bloody Sabbath (1973), Crazy Train (1980), No More Tears (1991) etc. (Veja aqui a lista completa).
E também está entre elas Mr. Crowley. A prova definitiva de que, já em 1980, Ozzy não tinha nada de satanista.
A música é inspirada num ser real: Aleister Crowley, que ganhou o título de “O homem mais perverso da Terra”.
Aleister Crowley
Nascido na Inglaterra em 1875, era filho de um rico comerciante. Mas a perda do pai aos 11 anos mudou sua vida.
Odiado pela mãe, que o chamava de “a besta”, Crowley, se tornou-se ocultista e líder de uma religião, a Thelema, que tinha como principal princípio: “Faça o que quiser, tudo é da lei”.
A Thelema surgiu depois que a esposa de Crowley foi incorporada por uma entidade que se dizia emissária de um antigo deus egípcio. O espírito ditou um livro com uma série de revelações, o que deixou o ocultista fascinado.
Ele escreveu uma série de obras, “Os Livros Sagrados da Thelema” que inspiraram muitos artistas como Jimmy Paige (Led Zeppeln), Paulo Coelho e Raul Seixas.
Ozzy conta que leu os livros e, num determinado dia, estava no estúdio e achou a cópia de um baralho de tarô idealizado por Crowley.
Uma coisa ligou à outra e Ozzy resolveu fazer a canção com o nome “Mr. Crowley”.
O tecladista Don Airye criou a introdução utilizando o som de um órgão, o que deixou a música com o teor sombrio que o cantor buscava.
O que pode parecer uma homenagem, no entanto, é um questionamento de Ozzy ao estilo de vida e ensinamentos de Crowley. Uma crítica ao uso do ocultismo para enganar as pessoas.
Crowley, em sua vida, realizou uma série de rituais macabros que envolviam uso de drogas (ópio), sangue de animais e orgias sexuais.
Mas nem sempre.
A revista Superinteressante trouxe uma reportagem sobre Crowley. Ela cita que em um dos rituais, na Escócia, o ocultista tentou trazer doze demônios para a terra para neutralizar um por um através de sua total abstinência.
Conseguiu levar o projeto por seis meses, até que precisou viajar para Paris, abandonando o processo. Coincidência ou não, pessoas que moraram na casa, depois, tiveram problemas sérios. Um dos donos se matou, Jimmy Paige, do Led Zeppelin, comprou a casa, mas tinha medo de dormir no local.
Em 2015, do nada, a casa pegou fogo e se transformou em ruínas (leia mais aqui).
Crowley morreu em 1947 depois de torrar toda a fortuna deixada pelo pai.
A religião que fundou é quase inexistente.
Influência dos demônios que não foram “neutralizados”?
Segundo a música de Ozzy, nada disso.
O Príncipe das Trevas deixa claro, na letra, que considerava o ocultista um engodo.
Mr. Crowley (Senhor Crowley)
What went on in your head? (O que se passava na sua cabeça? )
Oh, Mister Crowley (Oh, Senhor Crowley)
Did you talk to the dead? (O senhor conversava com os mortos?)
Your lifestyle, to me, seemed so tragic (Seu estilo de vida, para mim, parecia tão trágico)
(With the thrill of it all) Com toda aquela adrenalina
You fooled all the people with magic (O senhor enganou todo mundo com mágica)
(Yeah, you waited on Satan’s call) É, o senhor esperava pelo chamado de Satanás
Triste vida de Crowley.
Triste morte de Ozzy.
Uma pena que tenha sucumbido a demônios reais.
O corpo do astro estava tão judiado pelos excessos que ele não aguentava mais as dores.
Além do Parkinson que o deixava com uma aparência débil, Ozzy fez uma recente cirurgia na coluna que, ao invés de reduzir, aumentou seu sofrimento e reduziu sua mobilidade.
Há até uma teoria de que sua morte tenha sido planejada.
Por meio de eutanásia.
O show de despedida e entrevistas antigas em que ele e Sharon diziam que optariam pela morte assistida caso não tivessem mais condições de viver sem dor ou sem condições de se sustentarem sozinhos, geram essa dúvida.
Não importa, a voz que guiou e moldou os cantores de heavy metal que vieram depois dele, foi embora. Poderia ter tido mais tempo.
Para acrescentar mais um verso em Mr Crowley.
Um que ele mesmo deveria ter cantado e seguido desde a longínqua década de 1980:
Mr. Crowley
Não, o homem não pode tudo.
Mr, Crowley
O tempo cobra os abusos que cometemos.
E a proximidade com os demônios reais.
A cocaína e o alcoolismo privaram Ozzy de uma vida mais longeva.
E, com certeza, o rock, de mais sucessos.
Quantas músicas geniais a mais não poderiam ter saído da mente sã desse artista?
Quantos anos a mais Ozzy poderia ter vivido?
É, realmente, Mr, Crowley, o homem não pode tudo.
Seja ele um ocultista, um simples mortal ou, até mesmo, um Príncipe das Trevas.
Natural de Dois Córregos-SP, nascido em 10/03/1973, Alex é formado em Comunicação Social: Habilitação em Jornalismo pela Unesp, Bauru-SP. "Crianças costumam ouvir contos de fadas dos pais para dormir. Meu pai gostava de contar histórias de assombrações. A mistura do medo (potencializado pela mente criativa de uma criança) e a segurança (afinal, meu pai me protegeria de qualquer monstro) fez com que me apaixonasse pelo terror". "Desde cedo, na biblioteca, procurava livros sobre o tema e Stephen King moldou minha veia literária. Nos anos 80, filmes como Sexta-Feira 13, A Hora do Espanto e A Hora do Pesadelo enraizaram de vez o tema em minha vida. Desde cedo criava historinhas em minha mente até que um dia resolvi deixá-las viver por si só e assombrar outras pessoas. Assim surgiram Cinevil- o Terror está em Cartaz e A Lei dos Mortos, livros editados pela Life". Desde que a mãe de um menininho com deformidades físicas passou a matar adolescentes num tal de Camp Crystal Lake, a sexta-feira 13 passou a ser sinônimo de terror. Um terror divertido. Então, Toda Sexta é 13 vai manter essa tradição ao explorar o mundo sombrio com dicas de filmes, de livros, de séries, games, notícias e eventos envolvendo o terror de forma geral.