Suzane von Richthofen expõe bastidores do crime em documentário inédito

Relatos íntimos, confissões e lembranças da noite do crime colocam Suzane von Richthofen no centro de um documentário que expõe sua versão sobre o duplo homicídio dos pais

Lar sem amor, intimidades sexuais com o ex, uso de drogas e o que sentiu no momento em que Daniel e o irmão matavam seus pais estão entre os elementos que prometem dar o tom no documentário “Suzane vai falar”, protagonizado por Suzane von Richthofen. Com título provisório e sem data de lançamento, a produção inédita da Netflix na qual ela apresenta sua versão sobre o crime, se tornou o assunto mais comentado desta segunda-feira (6), após vazamento de relatos na obra.

Suzane von Richthofen no documentário da Netlfix, ainda sem data de lançamento. - Foto: Divulgação
Suzane von Richthofen no documentário da Netlfix, ainda sem data de lançamento. – Foto: Divulgação

Revelados pelo jornalista Ulisses Campbell em sua coluna no jornal O Globo, os trechos vão desde memórias da infância de Suzane onde narra um ambiente sem afeto, marcado por cobrança e silêncio emocional, até o que se recorda dos momentos que marcaram a noite do crime que culminou no duplo homicídio dos pais.

“Nós não falávamos em matar meus pais. A gente dizia que seria muito bom se eles não existissem”, descreveu Suzane. “Eu aceitei. Eu os levei para dentro da minha casa”, pontuou. E conclui, direta: “A culpa é minha. Claro que é minha”.

Sobre a noite do crime, Suzane sustenta que não participou diretamente da execução. Diz que permaneceu no andar de baixo, tentando se desligar do que acontecia quarto onde os pais dormiam. “Eu fiquei no sofá, com a mão no ouvido para não escutar nada”, contou, admitindo, no entanto, que tinha consciência do que estava em curso: “Eu sabia”.

Em outro momento, ela classificou o próprio estado de espírito no momento da execução como “dissociado”.Ao mesmo tempo, reconhece que poderia ter interrompido o assassinato dos pais. “Se eu parasse pra pensar, aquilo não aconteceria. (…) Quando tudo terminou, o impacto veio de forma imediata. Não tinha mais como voltar atrás. O que eu fiz não tem mais volta”, reforçou.

Com quase duas horas de duração, o longa-metragem foi disponibilizado em pré-estreia restrita pela Netlfix.

Infância ‘conturbada’

Segundo o jornalista, a obra começa pela infância de Suzane, que descreve que, a casa em que vivia com os pais Manfred e Marísia von Richthofen, era um ambiente de muitas cobranças e silêncio emocional.

“Eu vivia estudando. Era só nota alta. Tirava 9 e 10 em todas as matérias. Não tinha demonstração de amor, nem deles pra gente, nem da gente pra eles. Minha vida era brincar com o meu irmão”, sustentou Suzane.

Ainda de acordo com Suzane, a rotina familiar era atravessada por conflitos. “O relacionamento dos meus pais era muito ruim”, classificou.

Ela chega a contar ter presenciado uma cena de violência dentro de casa. “Eu era criança. Meus pais botavam a gente pra dormir muito cedo. Ouvi uma discussão e desci pra ver o que era. Eu vi meu pai enforcando a minha mãe contra a parede. Foi horrível”, recorda-se.

Suzane também descreve que ela e o irmão Andreas von Richthofen, de 14 anos na época do crime, eram quase “invisíveis dentro de casa” e que a família estava longe de ser um modelo de “comercial de margarina”.

Diante dessa ausência de afeto, justifica que o relacionamento com Daniel Cravinhos, um dos assassinos de seus pais, passou a ser o centro de sua vida.

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Na versão de Suzane, a rotina familiar era marcada por brigas e até agressões. – Foto: Reprodução

Namoro que acabou em morte

Manfred e Marísia foram assassinados a pauladas em 31 de outubro de 2002. O homicídio foi planejado pela filha do casal e executado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos. Na narrativa de Suzane, a ruptura familiar se aprofundou à medida que o namoro com Daniel se consolidava.

“O Daniel passou a ocupar todos os espaços da minha vida”, disse. Ao mesmo tempo, de acordo com ela, crescia a resistência dentro de casa. A mãe criticava o relacionamento de forma direta. “Ela falava que ele ia me puxar para o fundo do poço”, afirmou.

A partir daí, instala-se uma vida dupla. “Eu saía de casa dizendo que ia pro karatê, mas ia pra casa do Daniel”, contou. “Escondida dos meus pais, conheci todo o litoral de São Paulo. A gente alugava carro e seguia viagem. O Daniel me mostrou o mundo que eu queria viver”, prosseguiu.

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Relacionamento passou a ser ponto de fuga de conflitos familiares para Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos. – Foto: Reprodução

As mentiras se acumularam até serem descobertas. “Virou uma guerra dentro de casa. Qualquer coisa era briga”, relatou. O conflito com o pai escalou até a agressão física. “Ele me deu um tapão na cara tão forte que meu rosto virou pro lado”, revelou.

O ponto de virada, segundo ela, aconteceu quando os pais viajam por 30 dias para a Europa, e Daniel se mudou para viver com ela dentro da casa da família.

“Foi um mês de liberdade total. Um sonho que eu não queria que acabasse. Era o dia inteiro de sexo, drogas e rock ’n’ roll”, recordou. “Aquele mês mudou tudo na nossa vida”, afirmou, em um dos momentos nos quais chega a rir ao relembrar episódios do período.

Suzane von Richthofen ri ao lembrar de momentos em que passou junto com Daniel em casa sem os pais. - Foto: Divulgação
Suzane von Richthofen ri ao lembrar de momentos em que passou junto com Daniel em casa sem os pais. – Foto: Divulgação

A vida após o crime

Um dos pontos que chama atenção de quem já teve acesso ao conteúdo é a exposição da vida atual de Suzane. O médico Felipe Zecchini Muniz, atual marido de Suzane, relata ter entrado em contato com ela pelo Instagram para encomendar para as três filhas sandálias que Suzane customizava como forma de renda após sair da cadeia.

As filhas do médico também aparecem no documentário e Suzane também exibe o filho pequeno, reforçando a construção de uma nova vida familiar.

Ao falar de fé e redenção, Suzane diz que encontrou no filho a prova concreta de que o passado ficou para trás. “Quando eu olho para o meu filho, eu tenho a certeza de que Deus me perdoou”, elucubrou.

Crime nas telas

Condenada a 39 anos de prisão, pena atualmente cumprida em regime aberto, Suzane é fonte de uma crescente de produções que retratam o crime pelo qual ficou conhecida. De autoria também do jornalista Uisses Campbell, o livro “Suzane – Assassina e Manipuladora” é uma das várias obras que descrevem as investigações do caso e também sua vida enquanto detenta.

Recentemente, o caso serviu de inspiração para a série Tremembé, produzida pelo Prime Video, que retrata o cotidiano da penitenciária conhecida por abrigar detentos de casos notórios, onde Suzane, retratada pela atriz Marina Ruy Barbosa, cumpriu grande parte de sua pena.

Tremembé é nova série sobre criminosos brasileiros
Com Marina Ruy Barbosa no papel de Suzane, ‘Tremembé’ retrata criminosos brasileiros (Foto: Divulgação)

Anteriormente o Prime lançou a trilogia de filmes A Menina que Matou os Pais, O Menino que Matou meus Pais e A Menina que Matou os Pais: A Confissão, que dramatizam os bastidores da investigação depoimentos dos envolvidos, com a atriz Carla Diaz no elenco.

A menina que matou os pais
Cena de ‘A menina que matou os pais’, da Prime Video, retrata prisão de Suzane von Richthofen e irmãos Cravinhos. – Fotos: Divulgação

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